
Mãiii, quando estás zangada... gostas de mim?
Antes de mais, acho curioso que ainda não tenhas 3 anos e já me tenhas colocado semelhante questão. Revela, pelo menos, que vais ser moçoila para colocar as tuas dúvidas e não andar a remoer seja o que for!
Depois não pude deixar de confirmar uma certa teoria que tenho: quando nos zangamos, as crianças duvidam. Ora... não quero com isto dizer que vou deixar de me zangar quando atiras tudo para o chão, quando te recusas a comer a sopa mas pedes chocolate, quando atiras com pratos e talheres e o conteúdo de copos de sumo no meio de uma refeição...
Zangada ou não, quero que saibas sempre que não deixo de gostar de ti mesmo quando a minha voz se eleva e os meus olhos se arregalam e o meu dedo se levanta em riste na direcção do teu nariz. Não deixo de gostar de ti mesmo que já te tenha colocado no prato 3 garfos diferentes e que todos já tenham tido o mesmo destino: o azulejo do chão. Não deixo de gostar de ti mesmo que já me tenhas empurrado a mão que leva a sopa cinco vezes e que por duas delas me tenhas sujado a mesa e a roupa. Não deixo de gostar de ti porque despejáste a caixa dos brinquedos sem nenhum propósito ou que insistas em emporcalhar com as mãos cheias de chocolate ou bolachas o espelho do meu quarto, vezes sem conta e apesar das advertências... Não deixo de gostar de ti por nada que faças ou que deixes de fazer. Nunca.
E ainda bem que perguntáste, porque ás vezes nos esquecemos de o dizer. Achamos que é óbvio, que as crianças percebem, que as crianças têm de saber. Mas de cada vez que te ralho percebo nos teus olhos o medo que tens de que deixe de gostar de ti. Às vezes penso se será por essa razão tão estúpida que acabamos por aprender a não fazer disparates e desobedecer...
Muitos pedagogos e pedopsicólogos e pediatras defendem regras para evitar causar angústia nas crianças:
- Evitar criticar a criança ("és má", "és teimosa", "és terrível") e criticar o disparate ("foi feio o que fizéste", "não gosto quando és teimosa");
- Resumir o castigo ao acto de castigar e não manter uma expressão zangada depois de a criança já estar a cumprir o castigo - o disparate foi feito, a criança assumiu a consequência, a repreensão está dada: acabou a razão para se estar zangado.
- Explicar sempre que possível, depois de serenados os ânimos, qual o comportamento correcto e reforçar que gostamos deles sempre, mas que preferimos que se portem bem porque não gostamos de ter de nos zangar e de ter de castigar.
Eu ainda não sou profissional de nenhuma destas recomendações. Sai-me muitos desabafos como sejam «mas porque és tão teimosa???» e nem sempre se proprorciona explicar seja o que for. Mas até hoje nunca te neguei o abracinho que sempre me pedes depois do ralhete e das lagrimas... porque sei que nesse pedido está e estará sempre implícita a pergunta: gostas de mim?